Tudo pode acontecer quando não há tempo para nada

Trabalhei até a hora do almoço. Já pensava em sair para comer quando recebo uma mensagem tão curta quanto direta: “acho que você não vai almoçar hoje”.

Saí voando para atender ao chamado que esperava tanto. A fome poderia esperar.

Na verdade, acabei almoçando em casa. Ela estava calma e me disse para comer, pois não sabíamos quanto tempo duraria a espera daquela tarde – afinal, trabalhos de parto costumam durar várias horas, às vezes um dia inteiro.

O fato é que não sabíamos o que nos esperava. Não houve espera alguma.

Na verdade, o nascimento de Olívia pode ser retratado pelas coisas que faltaram nele.

Saímos de casa às 13h40, e depois disso não teve tempo para mais nada. Aliás, no trajeto de carro até a maternidade, teve trilha sonora.

Só houve tempo para uma música.

Denise não passou pela avaliação médica. Antes disso, a enfermeira da triagem havia dado a ela uma pulseira amarela. Ha! Que ironia. Ela gritou e gemeu, avisando que Olívia já estava nascendo, e ninguém acreditou. Ninguém além de mim, pois eu a conheço. Sei que ela enfrenta a dor sem medo, então realmente deveria estar acontecendo algo sério ali.

E estava mesmo. A bolsa havia estourado durante a triagem.

Se eu fosse Uhtred de Bebbanburg (um personagem do escritor Bernard Cornwell), diria que “o destino é inexorável”, e que as três fiandeiras do destino gargalhavam, debochando da pretensão humana sob a sombra eterna de Yggdrasill.

Nós achamos que alguns anos em uma escola podem nos ensinar tudo sobre a vida, o universo e tudo mais, e é claro que estamos errados. Mas então a sensibilidade brotou no coração calejado daquela brilhante enfermeira obstetra, que resolveu acreditar na seriedade do momento.

“Quer ser avaliada na sala de parto?” 

“Mas é claro que sim, pelo amor de Deus! Quero anestesia!” 

A distância era pequena, mas obviamente não houve tempo. Não houve força o bastante para segurar um pouco mais.

“Moça, espera! Ainda vou forrar a cama!”

As fiandeiras resolveram adicionar um fio dourado como elo na trama de nossas vidas naquele momento, mais uma vez rindo da nossa pretensão de achar que podemos fazer as coisas em tempo hábil. Pois não houve tempo de forrar a cama, não deu para pensar ou fazer mais nada.

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Tive o primeiro vislumbre de Olívia por entre as roupas íntimas da mãe, quando consegui tirar dela o vestido longo já encharcado de líquido amniótico.

Por segundos não tive eu mesmo que realizar o parto da minha filha. Surgiram rapidamente pares de mãos hábeis já usando luvas de procedimento, que precisaram apenas aparar a queda de Olívia, que saltou para fora de sua mãe num espasmo, em menos de um segundo.

Aquele bebezinho já saiu chorando a plenos pulmões, com o cordão umbilical enrolado duas ou três vezes em seu corpo e pescoço, a testa franzida e os olhos arregalados numa confusão indizível. Teve o seu primeiro momento no mundo digno de uma aventura hollywoodiana.

O semblante de dor extrema no rosto da mamãe deu lugar a uma expressão de susto e perplexidade, enquanto ela perguntava o que havia acontecido. As contrações, que explodiam sua mente em dores horríveis, haviam nublado sua percepção e sua noção de espaço e tempo.

Ela não havia entendido direito ainda. Só entendeu quando Olívia foi colocada em seus braços e parou de chorar imediatamente. Eu havia me tornado pai às 14h03, de maneira cinematográfica e completamente inesperada.

Primeira foto da vida de Olívia, minutos depois do parto.
Primeira foto da vida de Olívia, minutos depois do parto.

Denise não teve tempo de se despir, pariu maquiada. Não teve anestesia, não teve soro. Não teve demora nenhuma e não teve o que se espera de um trabalho de parto comum, pois Olívia acabou nascendo miraculosamente em um parto natural, sem nenhuma intervenção externa.

Wyrd bið ful ãræd. O destino é inexorável. Não cede aos nossos pedidos, desejos ou súplicas, e costuma ser mais surpreendente do que poderíamos sequer imaginar.

Tudo isso aconteceu há pouco mais de um mês e minha vida agora se encontra repleta de alegria, como nunca antes.

Nossa primeira foto de família!

Olívia me mudou para sempre, e tudo começou naquele dia. Pois quando se trata de uma vida nova, tudo pode acontecer – mesmo quando não há tempo para mais nada!

Vejo o mundo um pouco diferente todo dia e piro na comunicação entre as pessoas. Papai de Olívia e bicão no blog Casa de Maria!

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